Por João Lucas Cardoso (joaolucascardoso@yahoo.com.br)
Ao ser aberta pela primeira vez no dia, a caixa de entrada de esporte@diariodosul.com.br mais parece uma lixeira. Porém, em meio a tantas bobagens, inclusive da mocinha do marketing de uma marca de jeans - que insiste em mandar algo diariamente para editoria de esportes do jornal -, sempre há algo de uma equipe ou atleta de cidades locais que disputaram um campeonato em um canto do Estado. Prova de que a internet transformou qualquer cidadão em agente comunicador.
Há não muito tempo, as páginas esportivas dos jornais retratavam praticamente apenas o futebol local. Por isso, a enxurrada de títulos era sempre a mesma, evoluindo até chegar o fim de semana, quando a equipe profissional local jogava: “Time X quer recuperação após derrota”, “Time X treina para encarar Time Z”, “Time X tenta acertar finalizações”, “Time X intensifica treinamentos” e, por fim, na edição de sábado, “Time X pronto para jogo diante de Time Z”. O momento atual é diferente. O “Time X” chega a ficar em segundo plano.
A transmissão de dados e a comunicabilidade que a internet proporciona fazem com que modalidades esportivas, ora relegadas ao segundo plano, ganhem espaço. Não se trata de uma nova postura dos meios de comunicação, que insistem em velhas fórmulas e parecem dar as costas às novas tecnologias, principalmente os veículos do interior. O que ocorre é que além de cuidar da parte técnica, treinadores e diretores esportivos se viram obrigados a se transformar em uma espécie de assessores de imprensa também, ainda que muito se esforcem para tanto. Em boa parte dos “relises” faltam aspas e sobram elogios. Começar o texto com “aconteceu ontem em não sei onde” parece um mantra.
Até então “donos da informação”, jornalistas ainda se adaptam a este novo esquema e se transformam quase em retransmissores, simplesmente. Deixam de ser transformadores para ser uma parte da engrenagem que faz a notícia ser difundida. Apesar disso, a internet facilitou também a vida de quem não pode deixar sair em branco. As páginas ganham diversidade e o noticiário impresso diário regional se aproxima de sua missão, a de trazer notícias locais. Quase todos os dias é uma briga para conciliar tudo que chega com as notícias do time preferido pelo chefe e atender os apelos dos colegas, que exigem espaço para as equipes que torcem.
Fora do noticiário esportivo, Tubarão tem um exemplo emblemático do poder de comunicação que a internet proporciona e seu consequente aumento no leque de fontes aos jornalistas. Um engenheiro químico de meia idade, já aposentado, resolveu se dedicar ao estudo do clima. Além de frequentar aulas do mestrado, comprou uma estação meteorológica e a instalou no quintal de casa para se aprofundar. Depois, resolveu disponibilizar os dados em um site de amigos que trabalham em outro setor da engenharia. O endereço ganhou tanta notoriedade que hoje dá entrevistas com frequência, basta que um fenômeno um pouco diferente ocorra. Para se ter uma idéia da repercussão da sua iniciativa, o engenheiro químico passou a ser creditado por veículos locais como meteorologista.
Leitura complementar:
Jornalismo em mão dupla, Carlos Castilho (doutorando em mídia e conhecimento no EGC, UFSC), no caderno Cultura, do Diário Catarinense de 8 de maio de 2010.
Ao ser aberta pela primeira vez no dia, a caixa de entrada de esporte@diariodosul.com.br mais parece uma lixeira. Porém, em meio a tantas bobagens, inclusive da mocinha do marketing de uma marca de jeans - que insiste em mandar algo diariamente para editoria de esportes do jornal -, sempre há algo de uma equipe ou atleta de cidades locais que disputaram um campeonato em um canto do Estado. Prova de que a internet transformou qualquer cidadão em agente comunicador.
Há não muito tempo, as páginas esportivas dos jornais retratavam praticamente apenas o futebol local. Por isso, a enxurrada de títulos era sempre a mesma, evoluindo até chegar o fim de semana, quando a equipe profissional local jogava: “Time X quer recuperação após derrota”, “Time X treina para encarar Time Z”, “Time X tenta acertar finalizações”, “Time X intensifica treinamentos” e, por fim, na edição de sábado, “Time X pronto para jogo diante de Time Z”. O momento atual é diferente. O “Time X” chega a ficar em segundo plano.
A transmissão de dados e a comunicabilidade que a internet proporciona fazem com que modalidades esportivas, ora relegadas ao segundo plano, ganhem espaço. Não se trata de uma nova postura dos meios de comunicação, que insistem em velhas fórmulas e parecem dar as costas às novas tecnologias, principalmente os veículos do interior. O que ocorre é que além de cuidar da parte técnica, treinadores e diretores esportivos se viram obrigados a se transformar em uma espécie de assessores de imprensa também, ainda que muito se esforcem para tanto. Em boa parte dos “relises” faltam aspas e sobram elogios. Começar o texto com “aconteceu ontem em não sei onde” parece um mantra.
Até então “donos da informação”, jornalistas ainda se adaptam a este novo esquema e se transformam quase em retransmissores, simplesmente. Deixam de ser transformadores para ser uma parte da engrenagem que faz a notícia ser difundida. Apesar disso, a internet facilitou também a vida de quem não pode deixar sair em branco. As páginas ganham diversidade e o noticiário impresso diário regional se aproxima de sua missão, a de trazer notícias locais. Quase todos os dias é uma briga para conciliar tudo que chega com as notícias do time preferido pelo chefe e atender os apelos dos colegas, que exigem espaço para as equipes que torcem.
Fora do noticiário esportivo, Tubarão tem um exemplo emblemático do poder de comunicação que a internet proporciona e seu consequente aumento no leque de fontes aos jornalistas. Um engenheiro químico de meia idade, já aposentado, resolveu se dedicar ao estudo do clima. Além de frequentar aulas do mestrado, comprou uma estação meteorológica e a instalou no quintal de casa para se aprofundar. Depois, resolveu disponibilizar os dados em um site de amigos que trabalham em outro setor da engenharia. O endereço ganhou tanta notoriedade que hoje dá entrevistas com frequência, basta que um fenômeno um pouco diferente ocorra. Para se ter uma idéia da repercussão da sua iniciativa, o engenheiro químico passou a ser creditado por veículos locais como meteorologista.
Leitura complementar:
Jornalismo em mão dupla, Carlos Castilho (doutorando em mídia e conhecimento no EGC, UFSC), no caderno Cultura, do Diário Catarinense de 8 de maio de 2010.
5 de junho de 2010 às 06:06
O fato de todos se transformarem em jornalistas, assessores ou publicitários relâmpagos, não seria uma prostituição instantânea destas profissões. De repente chega pra você: “- Caro amigo, estou lhe enviando uma ‘materiazinha’, favor publicar”. E se não for publicado questionam nossa avaliação do que vale ou não sair nas páginas do jornal, somos criticados e até condenados. Isso é o cenário do jornalismo de interior.
O jornalista deixa um pouco de ser aquele que busca a informação, ele apenas retransmite. Ou seja, para aqueles que estão nos enchendo a caixa de “correspondência” na rede internacional virtual, somos apenas aquele que tem o poder (dinheiro) para colocar a informação na rua através do papel (jornal), e não de qualificar e melhorar a informação, de forma que o cliente (leitor) fique muito bem informado.
5 de junho de 2010 às 06:09
Então, se somos meros retransmissores e se todo cidadão é um agente comunicador em potencial, devemos todos concordar que a obrigação do diploma de jornalismo realmente é dispensável, não é mesmo? (contém ironia, evidentemente, não tô em uma pós pra fazer papel de boba). Acho que o bom jornalista, hoje, é mais do que nunca um baita de um editor, que deve saber apurar, filtrar e classificar a torrente de informações "preciosas" recebidas todos os dias.
5 de junho de 2010 às 06:19
Talvez uma explicação para as caixas de “e-mails lotadas” se dá pelo fato de que, não somos só nós, os profissionais da comunicação, os errados por publicar esses “relises”, mas também os donos dos veículos que preferem mais publicaá-los do que contratar mais repórteres.
5 de junho de 2010 às 06:19
5 de junho de 2010 às 06:21
Considero que os e-mails mencionados pelo João Lucas são contatos com fontes. Servede base para o repórter ir atrás do resto.
5 de junho de 2010 às 06:55
O trabalho dos assessores de imprensa torna-se importante, principalmente com as limitações de pessoas nas redações. As equipes de jornais, no caso citado, estão cada dia menores. Mas é preciso saber avaliar essas informações enviadas pelos assessores. É necessário ir atrás, checar e saber se realmente se essas notícias procedem. Não se pode é deixar o assessor ser o repórter do jornal.